segunda-feira, 23 de junho de 2008

A morte simbólica


Por Georgiana Calimeris

È preciso morrer para se viver. Todos os dias, as células do corpo humano se esvaem e se renovam sem que percebamos esses processos. Os dias sucedem seguidamente em um constante nascer e morrer. Dizemos nascer do sol e pôr-do-sol. O ocaso nos fornece uma pequena morte da luz para dar lugar a noite repousante. A morte é vista como algo escuro e brumoso, distante, em que se usa a expressão “a noite eterna”. A morte é sempre associada ao escuro. Em algumas culturas, a morte física é abraçada não com o profundo pesar do que se foi, mas, com uma comemoração e celebração pela vida da pessoa que parte, deixando saudades. Isso é mais comum nas culturas orientais. No Ocidente, a morte física deixa um rombo, um vazio, uma saudade avassaladora que, aos poucos, dá lugar a um novo momento de vida. A dor vai sendo deixada para trás, a nova rotina se estabelece e uma recuperação se faz presente. Nem sempre a superação acontece como no caso da partida de filhos ou quando uma vida em sua plenitude se esvai sem ter tido a chance de fenecer no tempo certo. Para todos, sem exceção, existe a necessidade de se lidar com a perda.

Para isso, o ser humano passa por cinco estágios de acordo com Elizabeth Kluber-Ross: 1. choque, negação e isolamento; 2. raiva, revolta contra tudo; 3. barganha; 4. depressão e, por fim, 5. aceitação, em que “o amor pela vida, quando a toma como um em fim em si mesma, se transforma em um culto pela vida”. Esses estágios servem não só para o luto físico como também para o luto da morte das personas que habitam o homem. Há um momento em que o ser humano que, como os heróis, decide enfrentar o mundo e, entenda-se aqui, o seu mundo interno, busca solucionar aquilo que lhe massacra a alma. Quando se chega no ponto da decisão do enfrentamento, nu e cru, muitas coisas morrem e aquela parte que fenece também luta para que não deixar de existir.

É um processo complexo em que o ser humano cria muralhas para se proteger e, depois, ele necessita derrubá-las para nascer. É certo que ninguém gosta de sentir dor e é possível perceber que a dor psíquica, em alguns aspectos, torna-se pior que a dor física, pois, eventualmente, a dor física passará como quando se quebra um osso, que doerá até que o corpo se cure. Sendo retirado o gesso, algumas sessões de fisioterapia, em breve, o homem esquece a dor que teve e o incômodo causado pela quebra do osso. Assim, também é feito quando se vai a um dentista e há uma extração dolorosa de um dente. Mal necessário, mas, que não influenciará a vida do ser humano o suficiente para voltar a se preocupar com isso a não ser que a ida ao dentista seja associada a algum processo traumático, que acarrete em grande ansiedade, gerando no corpo reações até mesmo involuntárias diante da ida ao dentista.

Os processos de associação no cérebro estão presentes o tempo todo, mesmo que sejam imperceptíveis a olhos nus. Os olhos da alma sabem e vêem tudo e deixam pistas inegáveis para os incautos que tentam deixá-los à distância e à deriva. Assim sendo, estes eventos vêm à tona, vez ou outra, gerando profunda angústia e desespero. Em um dado momento da vida da pessoa, há uma necessidade de se proteger o núcleo do ser para que a funcionalidade se mantenha ativa até que se possa quebrar as barreiras antes criadas e ainda presentes. Aqui, cabe um parêntese, pois, pode se haver uma confusão quando há referência a eventos transformadores na vida do ser humano. É certo que quando vamos crescendo, absorvemos comportamentos a partir da infância, que nos impele a nos tornarmos homens e mulheres plenos. No entanto, nem sempre isso ocorre com todos os seres humanos, pois, há aqueles que viveram situações extremas logo no começo de suas vidas (infância). Muito do que se vive nos anos pregressos determinam as vivências da vida adulta. Pessoas que cresceram em zonas de guerra desenvolvem hábitos na vida adulta que foram determinados na infância como o trancar excessivo de portas, mesmo quando não há mais necessidade de se trancar portas ou busca abundância na mesa, quando se passou fome.

Toda situação extrema vivenciada sem que a mente esteja preparada gera uma tentativa de se resolver a questão de outra forma que não o enfrentamento. Os hábitos e comportamentos são adquiridos e deixados ali sem que se dê a devida importância até que surge a necessidade de se lidar com o fato em si, mesmo tendo se passado muitos anos. Acredito que os transtornos de pânico e ansiedade generalizada são um grito da psique para que se haja uma resolução daquilo que não pode ser resolvido antes pela falta de maturidade. Assim, é uma forma que se tem para que os conflitos venham à tona de modo que possam ser resolvidos devidamente. Para Anne McNeely no livro Tocar, Terapia do Corpo e Psicologia Profunda, a solução para os problemas da alma é o enfrentamento. Não há outra forma de se chegar à paz. Os caminhos são diversos para se encontrar o momento de repouso aliviante.

No inconsciente, os eventos vividos em intensidade (em qualquer fase da vida) ficam retidos e passam a ser vivenciados a todo instante e pior ainda quando se trata da aproximação do que já foi vivido anteriormente. Não só há uma ansiedade, que beira o desespero total como também há um dano psicológico profundo que leva a pessoa a: despersonalização, desconexão com seu corpo, uma sensação profunda de abandono, tristeza, depressão e isolamento social. Dependendo do que se viveu, há uma agressividade para com outros seres humanos devido ao medo recorrente da repetição do evento. O medo passa a ser uma constante na vida do ser humano que teve sua psique invadida de modo brusco. Há situações em que a lembrança deixa de existir também como forma de auto-proteção como no caso de abusos infantis, embora o comportamento desenvolvido posteriormente, demonstre claramente o que possa ter ocorrido como a erotização precoce. São pistas sutis e, talvez, delicadas demais, pois, na grande maioria dos casos de abuso sexual infantil, o perpetrador é alguém da família.

As pessoas vítimas de algum tipo de abuso de poder como, por exemplo, crianças presas em ambientes fechados por empregadas ou babás ou que tenham sofrido sido espancadas por alguém em quem confiavam, desenvolvem comportamentos na vida adulta ligados ao trauma inicial. Algumas passam a vida sentindo um grande vazio, sem realmente se sentirem integradas ao mundo. Sabem haver algo errado com elas, mas, não distinguem com clareza o que é, pois, o caminho de volta, normalmente, está relacionado em olhar as migalhas de pão deixadas para trás como no conto infantil de João e Maria. No entanto, em algum momento, os passarinhos comem as migalhas e o caminho se perde por ser extremamente dolorido encarar a questão.

Então, como fazer? O que fazer com a dor que se lança na alma e corrói? Depende de cada caso. Em casos em que a memória ainda ativa os momentos de brusquidão, a pessoa percebe a escolha entre permanecer com o medo embotando o discernimento e buscar um jeito de lidar com a situação e viver a vida normalmente. Em casos em que a memória não alcança e a dor se faz presente, é preciso coragem. Mas, novamente, como João e Maria, perdidos na floresta escura e com fome, o ser humano busca abrigo em uma casa de doces, em que podem comer à vontade (leia-se aqui comportamentos obsessivos, a tentativa de compensar o vazio seja com drogas, álcool, compras excessivas, auto-flagelo, etc). Na história, Maria se torna a empregada da bruxa enquanto o irmão fica preso, tendo que engordar para virar comida para a bruxa. Algumas pessoas acham mais seguro permanecer na casa da bruxa a enfrentar a saída da situação e até lá, é preciso fortalecer tanto a alma como o corpo. A tendência é separar corpo e mente, quando, na realidade, está tudo ligado e vivendo juntos as situações que impomos com as nossas vivências.

Então, quando Maria percebe que a bruxa não enxerga bem, ela desenvolve uma estratégia e pede para João mostrar um osso de galinha, fingindo ser seu dedo. Assim, ela fortalece os dois ao cozinhar, ao nutrir. Com o ser humano também é assim, é preciso se nutrir para se fortalecer para o enfrentamento. Os heróis são fortes porque passaram por treinamentos árduos. Assim, devemos fazer também com nós mesmos, fortalecer para a grande jornada. Para os que trazem uma grande carga de peso sobre a alma e que projetaram muralhas gigantes à sua volta é um trabalho de mergulho ao próprio inferno, é um trabalho de se abandonar a si mesmo e enfrentar o mundo de Hades com a integridade inteira. Morrer não é um ato simples como beber água. É um ato de desespero porque é quando se chega ao ponto da completa e total exaustão, quando a vida se torna uma sobrevivência minguada e desesperadora. É impossível respirar, que dizer, de viver!

No entanto, quando se chega nesse pedaço da trilha, aquele ser conhecido de outrora deve morrer e outros conflitos surgem porque o que se conhece é o que é confortável. Aquele pedaço que morre quer insistir em existir, apega-se à vida como um último sopro, como o Golem do Senhor dos Anéis se apega ao anel. Voltando a história de João e Maria, em uma situação de oportunidade, Maria tranca a bruxa dentro do fogão e foge com o irmão e eles reconhecem o caminho de volta para casa, agora. Na maioria das lendas, os heróis enfrentam lugares profundos e saem diferentes. Eles ainda não morreram, mas, enfrentam a morte constantemente em suas lutas, os conflitos internos do si mesmo.

Perseu, quando enfrenta Medusa, liberta Pegaso. Medusa trazia dentro de si, o veneno e o antídoto e nós também temos o veneno e o antídoto, mas, acima de tudo, antes de enfrentarmos o olhar paralisador de Medusa, precisamos nos fortalecer para que quando ela se for, possamos libertar nosso Pegaso interno e voar pelos céus. Mas, aqui, também há o aspecto da morte, Medusa morre para dar lugar ao cavalo alado. O medo dessa morte simbólica está associado ao medo do que não se conhece. É possível também que a vida proporcione algum momento em que o sentido do que se conhece mude radicalmente, transformando a necessidade de permanecer para seguir adiante porque o que antes era apenas um vislumbre da felicidade, transforma-se em realidade e tudo que se quer é ser feliz.

Nesse instante, descobre-se que a morte é um renascimento, é a fênix que queima para ressurgir esplendorosa. É quando no abandono, percebe-se que não há mais porque sofrer. Mas, antes de atingir a total entrega, cada um caminha da sua forma, no seu passo e no seu ritmo até o momento crucial do enfrentamento, que, aparentemente, parece ser a única forma de matar de uma vez por todas os monstros que assombram a alma. No entanto, nós também somos esses monstros e ao matá-los também matamos um pedaço de nós, que caminhou longamente ao nosso lado, que segurou nossas mãos inúmeras vezes em noites frias e tempestuosas. Talvez, devamos convencê-los de que eles não morrerão, mas, como nós nos transformamos, eles também se transformarão com a gente, apenas viverão de forma diferente, em corpos diferentes, ainda ao nosso lado por terem feito parte de nós e estarão caminhando ao nosso lado rumo ao pico do Everest de cada um de nós.

domingo, 23 de março de 2008

Sobre medusa

Como o yoga proporciona o auto-conhecimento, acho importante usarmos as formas símbolos para acharmos quem somos para encontrarmos o caminho da paz.



Medusa - Mito e Estados Depressivos

Medusa, ser terrível, embora monstro, é considerada pelos gregos uma das divindades primordiais, pertencente a geração pré - olímpica. Só depois é tida como vítima da vingança de uma deusa. Uma das três górgonas, é a única que é mortal. Três irmãs monstruosas que possuíam cabeça com cabelos em forma de serpentes venenosas, presas de javali, mãos de bronze e asas de ouro. Seu olhar transformava em pedra aqueles que a fitavam. Como suas irmãs, Medusa representava as perversões. Euríale, simbolizava o instinto sexual pervertido, Ésteno a perversão social e Medusa a pulsão evolutiva, a necessidade de crescer e evoluir, estagnada. Medusa também é símbolo da mulher rejeitada, e por sua rejeição incapaz de amar e ser amada, odeia os homens nas figura do deus que a viola e abandona e as mulheres, pelo fato de ter deixado de ser mulher bela para ser monstro por culpa de um homem e de uma deusa. Medusa é a própria infelicidade`, seus filhos não são humanos, nem deuses, são monstros. Górgona, apavorante, terrível.

O mito de Medusa tem várias versões, mas os pontos principais refletem estas características acima. Como Midas ela não pode facilitar a proximidade, um transformava tudo em ouro com apenas um toque, ela é mais solitária mais trágica, não pode sequer olhar, pois tudo o que olha vira pedra, Medusa tira a vida, o movimento com um simples olhar, também não pode ser vista de frente, não se pode ter idéia de como ela é sem ficar paralisado, morrer.

Diz o mito que outrora Medusa fora uma belíssima donzela, orgulhosa de sua beleza, principalmente dos seus cabelos, que resolveu disputar o amor de Zeus com Minerva. Esta enraivecida transformou-a em monstro, com cabelos de serpente. Outra versão diz que Zeus a teria seqüestrado e violado no interior do templo de Minerva e esta mesmo sabendo que Zeus a abandonara, não perdoou tal ofensa, e o fim é o mesmo. Medusa é morta por Perseu, que também foi rejeitado e com sua mãe Danae trancado em uma arca e atirado ao mar, de onde foi resgatado por um pescador que os levou ao rei Polidectes que o criou com sabedoria e bondade. Quando Perseu ficou homem, Polidectes enviou-o para a trágica missão de destruir Medusa. Para isto receberia o auxílio dos deuses. Usando sandálias aladas pode pairar sobre as górgonas que dormiam. Usando um escudo mágico de metal polido, refletiu a imagem de Medusa como num espelho e decapitou-a com a espada de Hermes. Do pescoço ensangüentado de Medusa saíram dois seres que foram gerados do conúbio com Poseidon. O gigante Crisaor e o cavalo Pégaso. O sangue que escorreu de Medusa foi recolhido por Perseu. Da veia esquerda saia um poderoso veneno, da veia direita um remédio capaz de ressuscitar os mortos. Ironicamente, trazia dentro de si o remédio da vida, mas sempre usou o veneno da morte.

" Três irmãs, três monstros, a cabeça aureolada de serpentes venenosas, presas de javalis, mãos de bronze asas de ouro: Medusa, Ésteno e Euríale. São símbolos do inimigo e se tem que combater. As deformações monstruosas da psiqué, consoante Chevalier e Gheebrant ( Dictionnaire des Symboles, Paris Robert Laffont, Júpiter, 1982) se devem as forças pervertidas das três pulsões: sociabilidade, sexualidade, espiritualidade" .(Brandão, ed. Vozes 1987).

Tenho observado em pacientes em terapia, alguns processos que remetem ao mito de Medusa. Estes relatam um sofrimento imenso devido a dificuldades em perceber a própria imagem. Quem sou eu? A grande pergunta para qual toda a humanidade busca respostas. Para estas pessoas, como se tivessem uma imagem invertida refletida no espelho, a pergunta é o que eu não sou. Incapazes de mostrar uma imagem positiva, como os filhos monstros de Medusa, erram pela vida alinhando possibilidades para construir sua monstruosidade. Estes filhos de Medusa, embora filhos de um deus, herdam da mãe a figura monstruosa a que se viu presa a bela Medusa. A duplicidade da Mãe os acompanha. Pégaso unido ao homem é o Centauro, monstro identificado com os instintos animalescos. Mas tambem é fonte, como seu nome simboliza, alado , é fonte de da imaginação criadora sublimada e sua elevação. Temos em Pégaso os dois sentidos ,a fonte e as asas. Símbolo da inspiração poética representa a fecundidade e a criatividade espiritual. Pégaso talvez represente o lado belo de Medusa, que ficou escondido, que não podia ser visto, pois como vimos ela representava a pulsão espiritual estagnada. Pégaso é a espiritualidade em movimento. Crisaor é apenas um monstro, pai de outros monstros Gerião de três cabeças e Équidna. Équidina herda da avó o destino trágico. Seu corpo metade mulher, de lindas faces e belos olhos, tem na outra metade uma enorme serpente malhada, cruel . É a bela mulher de gênio violento. Incapaz de amar, devoradora de homens. Uma reedição de Medusa. Continuará a saga ancestral de odiar os homens e gerar monstros.

Com uma imagem distorcida, como dizíamos anteriormente, estes "filhos de Medusa" não podem ver-se a si mesmos como são, e sempre imaginam bem piores até mesmo do que poderiam ser.

Alguns autores como Melanie Klein e Alexander Lowen falam que a imagem de si se origina do olhar da mãe. A forma como a criança é olhada, é vista, o que ela percebe de rejeição ou aprovação é captado no olhar da mãe. Os tristes filhos de Medusa não podem vê-la, tambem não podem ser vistos por ela. Esta mãe de mãos de bronze não pode acariciar, seu olhar paralisa, seus dentes de javali impedem que beije, mas quando poderia ser atingida pelo filho ela se torna divina, tem asas de ouro, é um alvo móvel. Medusa incorpora para estas personalidades de estrutura depressiva o mito da mãe divina, vista pelo seu filho como a santa mãe, não gera filhos felizes, apenas trágicos. Não pode ser mulher, é santa. A princípio como Jocasta, depositária da paixão do filho, Medusa não o ama, fazendo-o sentir-se torpr e culpado pelo seu amor incestuoso. Como recurso ele a santifica para continuar amando-a e justificando a sua rejeição como forma de protege-lo da sua própria torpeza. Desprovida como santa de instinto sexual, não pode falar ao seu filho da sexualidade feminina, não pode dizer-lhe o que é uma mulher. Inacessível como santa, torna-se monstro. Monstro que é percebido pelo filho mas que se nega a ser visto como é. Medusa não olha, não acaricia, não orienta. Paralisa. Não é por acaso que o sentimento da depressão é a inércia, a perda da vitalidade. Como se tivessem transformados em pedra pelo olhar da mãe os filhos de Medusa erram pela vida sem espelhos que traduzam sua imagem. São monstros cuja criatividade afogada na pedra de suas almas precisa ser libertada. Precisam encontrar um espelho e que lhes diga quem são ou pelo menos quem não podem ser.

No trabalho terapêutico de pacientes com depressão, tenho observado que há uma enorme dificuldade em perceber a figura materna. Ela é idealizada a partir de perfis culturais que parecem não poder ser questionados. Frases como: "qual a mãe que não ama seus filhos?" ou "toda mãe é uma santa" traduzem a situação que impede a visão do real. São pessoas desprovidas de afeto, mas com uma enorme necessidade de carinho, que no entanto não suportam proximidade, de uma vez que não confiam em ninguém, pois não acreditam que podem ser amados. Sentem se monstros. Alguns mais adiante no processo chegam a perceber nitidamente que não foram amados, mas como se esquivando de perceber a profundidade dessa dor negam afirmando que isto é normal, diante da sua torpeza. Falam de mães ocupadas, falam de mães vaidosas ressentidas da perda da beleza com o nascimento do filho. Mas essas referências são quase superficiais.

Quando conseguem se aproximar da visão real dessa mãe de garras e mãos de bronze os sintomas se multiplicam, aumenta a depressão e com esta a paralisia, a inércia. Podem passar vários dias deitados, sem trabalhar ou realizar um mínimo de esforço. Ver Medusa é petrificar-se. Muitos desenvolvem sintomas de dor de cabeça, medo de doenças fatais como câncer, AIDS (doenças ligadas a amputação, decapitação, ao sangue, a sexualidade e sintomas de castração). As fantasias de autopunição se multiplicam, relatam possibilidades de acidentes de automóvel ou com armas de fogo. Tem fantasias de traição com amigos ou companheiras. São pessoas trágicas. Todos relatam uma ausência de alegria, mesmo quando estão em ambientes alegres. Uma profunda inveja do prazer do outro os assola. Muitos perseguem a fantasia de resolver a falta com postos de poder e dinheiro. Aumenta a dor. O poder que tanto ansiaram ou o dinheiro que tudo resolveria aumentam a profundidade do abismo. Ter tudo e não sentir-se nada é muito mais terrível. O abismo se abre cada vez mais como as entranhas da mãe monstruosa. Restam- lhes fantasias suicidas. É preferível morrer a sentir-se monstro. Muitos realizam esta fantasia como ultima tentativa de atingir Medusa. Mas ela nada sentirá, seu ódio pelo homem que a violou transmite-se ao filho que gerou. Sua pior inimiga Minerva ( a deusa da inteligência), deixa-lhe como legado o ódio às mulheres. Não pode dizer ao filho como lidar com elas, como gerar com elas novos filhos, amados ,sadios. Sua descendência, embora não precise ser deverá ser de monstros gerando outros monstros. Fala-se da hereditariedade da depressão. Penso que se houver é muito mais transmitida em gestos e pelo ambiente trágico e desprovido de prazer, em que estas novas crianças nascerão. Os filhos de Medusa não podem ter mulheres amorosas, isto a denunciaria. Raramente, quando encontram estas mulheres não podem confiar nelas e abortam assim a possibilidade de obter o amor que os revitalizaria.

Mas, apesar das dificuldades e das fantasias autopunitivas, Medusa pode ser vista. Através do espelho do terapeuta e deste como espelho, a figura de medusa pode ser vista. Se a relação terapêutica se dá de forma transferencial, amorosa, confiante, o espelho refletirá imagem de Medusa, como ela é. Incapaz de amar, cruel e terrível, górgona, apavorante. Como resultado o filho descobrirá que o monstro é ela, não ele. Da morte dela resulta sua vida, e como Pégaso ele ganha os céus, liberto, simbolizando a vitória da inteligência e sua união com a espiritualidade, a sensibilidade que sempre existiu naquele que se julgava o monstro. Como Pégaso, se não se aferrar ao seu aspecto de humano comum, em revoltas descabidas e em vinganças inúteis poderá compreender a tragédia de Medusa e perdoa-la. Não se transformará no monstro Centauro, identificado com o instintos animalescos e a sexualidade desregrada. Se incorporar Centauro errará pela vida sem pertencer a ninguém. Homem de muitas mulheres, mas sem nenhuma. Será monstro preso a sua mãe monstruosa. Incapaz de amar como ela. Se assumir sua condição de Pégaso, será fonte, de todas as belezas, da mais pura elevação, da criatividade, da fidelidade. Não é por acaso que Pégaso simboliza a Poesia.

As filhas de Medusa também apresentam como ela a impossibilidade de ser amada. São mulheres tristes de trágica figura, mesmo quando belas. Condenadas a serem crianças eternas presas as entranhas da mãe, não podem deixar de ser filhas-monstro, a não ser para poderem ser mães- monstro. Filhas da violação e do abandono (é assim que Medusa transmite a elas sua relação com os homens) são mulheres-meninas, incapazes de perceber o homem a não ser como brinquedo, ou como fonte de sofrimento. Unem-se quase sempre a homens cruéis que possam justificar a idéia da mãe da impossibilidade de ser feliz com um homem. Quando raramente encontram o amor, destroem-no destruindo o homem amado, como faz no mito Équidna, legítima herdeira de Medusa.. Mulheres de amores infelizes, herdam de Medusa as garras, as mãos de bronze, e as asas de ouro. Vítimas de novos abandonos reforçam em cada experiência infeliz a idéia da mãe. Também possuem o olhar terrível. Das uniões infelizes geram filhos infelizes que carregam presos a si mesmas não por amor, mas pelo terror que podem gerar. Novas medusas. Se pela procura puderem chegar ao espelho, podem ser deusas, podem ser Pégasos, ou até mesmo Poesia uma das Musas; se não seguirão seus destinos de mulheres- crianças gerando filhos que não podem amar e que no máximo lhes servem de brinquedo para suas brincadeiras cruéis de paralisar e aterrorizar pessoas. Seguem a saga de Medusa. Mulher que se torna monstro, pelo descuido de homem, pela crueldade de uma deusa.

Mas e as mulheres Medusa? O que lhes resta? O próprio mito nos mostra.

Perseu filho de Danae, mãe amorosa, que segue seu filho no destino que lhes foi dado pelo pai terrível que ouviu de um mago que seria assassinado pelo neto. Trancados em uma arca atirados ao mar são salvos por Poseidon que os encaminha a uma praia tranqüila onde são recolhidos por um pescador e levados ao rei Polidectis, que o educa amorosamente como filho. Perseu é filho de mãe amorosa, que tudo perde para seguir seu filho. Que abandonada por um homem, o próprio pai, atirada à morte por ele não transforma isto em ódio a masculinidade. Perseu também. Seu abandono pelo avô e pelo pai que não o salva, é no entanto criado por um pai amoroso. Perseu e Danae o oposto de Medusa. Não permitiram que sua desgraça se transformasse em ressentimento para com a humanidade. Foram alcançados e salvos pelo amor humano. Ao contrário de Medusa, da qual ninguém pode se aproximar. Somente Perseu poderia destruir Medusa, ele pode ser visto exatamente como seu contrario no espelho, ela mulher, ele homem, ela ressentida, ele perdoando, ela sem possibilidade de resgate, ele salvo pelo amor da mãe que o acompanha, pelo cuidado de um deus e pelo amor de uma pai-rei. Tudo o que faltou a Medusa que precisa ser vista, no espelho, para poder ser destruída e libertar Pégaso. Medusa tem que ser compreendida alem do seu aspecto monstro, como mulher-criança, frívola, presa a beleza passageira, desafiando a grande deusa, a inteligência a quem desafia e a quem odeia. Para depois de morta servir a ela, Minerva, mesmo que seja como esfinge no seu escudo. Guiado pela inteligência e sabedoria de Minerva, que corrige o seu erro de ter criado um monstro, o olhar de Medusa agora é útil, tem aplicabilidade, destroi o inimigo. Já não mata os que ama.

Se a transferência não se realiza, se a relação terapêutica não se faz, e disse alguém que a terapia é uma função de amor, os filhos de Medusa verão no terapeuta a imagem dela e fugirão. Tudo estará perdido, o amor não poderá realizar seu resgate, e Medusa permanecerá eternamente viva destruindo e paralisando até que se destrua ou destrua seus filhos.

Recife, 11 de dezembro de 1996

Marise de Souza Morais e Silva Santos